Tuesday, February 07, 2006

Por que não sou dinamarquês?

Monday, January 16, 2006

Brasil, século XXI

"Toda acusação apavora. Um santo chamado de canalha há de tremer em cima dos sapatos. Se não me engano, contei aqui o que aconteceu, certa vez, num sarau de grã-finos. Imaginem que eles, os grã-finos, estavam jogando víspora. Ora, o sujeito que, nesta altura dos acontecimentos, joga víspora está salvo. Não há nada mais inocente, mais imaculado. E, súbito, um dos presentes berra: 'Olha o rapa!'

O que houve a seguir foi indescritível. Grã-finas saltaram pela janela, esconderam-se debaixo das mesas, trancaram-se no banheiro. Assim é o brasileiro: um sujeito atormentado por culpas imaginárias."

[Nelson Rodrigues, "A Compaixão em Vigília", crônica em "O Reacionário?"]

Tuesday, December 06, 2005

Pérolas aos Porcos

Diz-se que o escotismo são 40 crianças fingindo ser de adultas, comandadas por um adulto vestido de criança.

O rock é mais ou menos isso. Um adulto passando por jovem, enquanto uma pá de jovens finge ser débil-mental -- muito bem, aliás.

Mas eu não tenho nada contra o rock 'n' roll, exceto a música e o visual; tenho de reconhecer que eventualmente fazem bons temas para comerciais.

No axé-music as mulheres se fantasiam de putas, e os homens variam entre tipos como rufião, turista, neguinho do pandeiro e o vendedor de côco.

Se isso é mais ou menos ridículo que um pianista apresentar-se de fraque, num calor de 43 graus, ficará a cargo do leitor demonstrar.

De qualquer modo, não consideraria a imagem abaixo um sinal evidente de evolução:

Friday, December 02, 2005

Deixa a Vida Me Levar

Friday, November 25, 2005

Liberalismo, Arte e Religião

When I find myself in times of trouble
Mother Mary comes to me
Speaking words of wisdom, let it be.
And in my hour of darkness
She is standing right in front of me
Speaking words of wisdom, let it be.
Let it be, let it be.
Whisper words of wisdom, let it be...

Friday, November 04, 2005

Paris, Texas

Gente de outra religião, instrução, cor, nariz e sotaque reclama de ser discriminada na França. Estas pessoas não são queridas pela população que detesta até turista, e é natural que atear fogo em carros vá melhorar sua imagem.

Pelo que li (vinte linhas), dois bacaninhas se esconderam dentro de um transformador, e quando isso resultou em sua eletrocussão, todos se revoltaram e saíram às ruas exigindo empregos decentes e melhores condições de vida -- direitos que, sabe-se, todos os pobres e imigrantes têm --, além do direito a ir trabalhar de burca encardida, ou fantasiados de tender.

Se querem saber, acho que toda revolta na história da França decorre da falta de banho da população. E não se trata apenas do suor que exalam durante as manifestações -- quando a coisa só piora, entrando num círculo vicioso do fedor --, mas o afetamento, o exagero, decorrentes da falta de um bom banho.

Porque fede, o francês usa perfumes. Mas não como um ser humano normal, não: ele se encharca, quase toma um banho de água-de-cheiro. E assim acostuma o seu espírito a manifestações sempre exageradas nos mais diversos ramos da vida -- e a rixa com os fleugmáticos ingleses em nada ajudou. No campo artístico é tudo muito evidente, e tantas são suas revoluções românticas, que nem há o que comentar. E a moda, que é senão um exagero visual, todas aquelas plumas e chapéus? Revoluções como as de 68, fadadas ao nada. Napoleões e Robespierres, Luíses e De Gaulles... tudo muito afetado.

Agora queimam carros, produzindo inimaginável calor. Quando para inteirar o salário, melhor seria lavá-los, a preço de ocasião. Mas, é claro, o banho, sempre contrários ao banho.

As Máscaras de Deus (i)

Friday, October 28, 2005

O Jardim das Delícias

Friday, October 14, 2005

As estatísticas a serviço do Bem Maior

Campanhas impregnadas por estatísticas me causam uma sensação, algo assim entre o riso cínico e o nojo...

Primeiro, que a população não entende fração, quanto mais percentagem. Segundo, que os dados estão sempre distorcidos; e ainda que não estivessem, dificilmente garantiriam alguma coisa. Terceiro, que o conceito de eficácia neste caso é bastante difícil de ser definido -- quantas vítimas a mais ou a menos são necessárias? de que tipo?

Por último, mesmo que se prove algum dia a eficácia do desarmamento para se diminuir um poucochinho a violência, eficácia não deveria servir como argumento para se restringir direitos individuais. Ou pelo menos, tomada com extremo cuidado. Sobretudo quando se trata de uma eficácia tão vaga. E nêgo não percebe isso. Que a eficácia é maligna; que no dia em que os fins justificarem os meios, tudo será permitido.

A tortura é eficaz? Tratemos de legalizá-la. Evitaria a morte de um bom número de caboclos, não? Um chip no cu do cidadão ajudaria a prevenir a criminalidade? Que o Estado enfie os seus intrumentos e o bem-comum em nosso rabo.

Wednesday, October 12, 2005

A Vida Como Ela É

"Tantos anos depois, ainda vejo o Paul Robeson em todo o esplendor de sua figura e de suas polainas. Vocalmente, tinha a potência de um barítono, ou baixo cantante, desses que exigem a acústica de uma catedral, a cúpula de uma catedral. Enchia a rua, o bairro, com o seu clamor: 'Eu tenho razão! Eu tenho razão!' Lá estavam elas, as polainas. O homem andava de um lado para outro. Bem vi que as polainas o desagradavam da frustração da casaca. Soltava a voz: 'Eu tenho razão! Eu tenho razão!'

Em três ou quatro minutos, vim a conhecer a história toda. Aquilo era um despejo. O crioulão de polainas estava ali como oficial de Justiça. Outros crioulões, e um branco sarará, iam e vinham trazendo os móveis e empilhando tudo na calçada. Quanto à mulher dos gritos (e continuava gritando), era viúva e mãe de cinco ou seis filhos. Há uns três meses o marido morrera tuberculoso e deixara, para a mulher, além das dívidas, a própria doença.

Cabe então a pergunta: e de onde vinha a magnífica, a estupenda, a ululante razão do oficial? Ei-la: a viúva não pagava o aluguel há um ano. E, portanto, ele podia abrir sua razão de par em par, como uma manchete. Outrora, o brasileiro reagia muito contra a violência, mesmo justa, mesmo legal. Sempre um ou outro gritava: 'Não pode, não pode!' Mas ninguém insinuou um vago pio em favor da viúva e dos filhos. De vez em quando vinha a tosse afogar a sua fúria. Ela se torcia e distorcia em náuseas medonhas. Houve um momento em que, depois do acesso, cuspiu na palma da própria mão e espiou o sangue. A vista do vermelho distraiu-a do despejo. Arquejou, sem desespero, apenas informativa: 'o falecido me chama'. Não chorou mais, ou por outra: continuou chorando, mas sem gritar. E as polainas eram mais insolentes do que esporas.

Eis o que eu queria dizer: vem daí, desse pequeno e ilustrativo episódio, o meu horror às pessoas que têm razão e a proclamam com o impudor da manchete. Dirá o leitor que qualquer um pode ter razão. Nem todos, nem todos. Eu diria mesmo que só algumas almas seletíssimas, alguns espíritos de rara delicadeza podem tê-la. Lembro-me de outro episódio também perfeitamente cabível. Foi uma briga de mulheres.Uma senhora insultou outra. Por quê, não me lembro. E o marido da ofendida foi tomar satisfações. A culpada estava esperando criança. Mas o Fulano tinha razão; e porque a tinha derrubou-a a bofetões e mais: pisou-lhe a barriga, chutou-lhe a gravidez. Correto. Tinha razão.

Nas almas menos nobres, a razão pode subir à cabeça em forma de vil embriaguez. E os piores sentimentos, e as crueldades mais secretas e inconfessas, e todos os demônios do orgulho são liberados. Tudo que sei da vida ensina que a razão pode perder a nossa alma e repito: pode destruí-la..."

[trecho de "O Negro Azul", em A Cabra Vadia, de Nelson Rodrigues]

Friday, September 30, 2005

A Esquerda Sangüinária

Sanitas Sanitatum et Omnia Sanitas - 2

Commies are red,
Dumbos are blue.
Witches are ugly,
And so are you.
- - - - - - - -
Commies are red,
Dumbos are blue.
They are the virus,
We are the cure.

Friday, September 23, 2005

Live and Let Die

Argumentos Pró-Desarmamento

"Entretanto, o referendo por si só traz a enorme valia de levar o tema ora tratado ao debate público, ao questionamento coletivo, à reflexão..." [sai correndo com a mão na boca]

Um argumento suficiente para se compreender a querela. Mas pagando bem, tenho também o benefício da dúvida para vender.

De brinde, uma velha pergunta peruana: se armas são tão ineficazes, por que a polícia e os bandidos fazem questão de usar?

Os que propõem um banho de sangue

"Preliminarmente, devo confessar o meu horror aos intelectuais ou, melhor dizendo, a quase todos os intelectuais. Claro que alguns escapam. Mas a maioria não justifica maiores ilusões. E se me perguntarem se esse horror é recente ou antigo, eu diria que é antigo, muito antigo. A inteligência pode ser acusada de tudo, menos de santa. Tenho observado, ao longo de minha vida, que o intelectual está sempre a um milímetro do cinismo. Do cinismo e, eu acrescentaria, do ridículo (...) E nenhum socialista deixará de repetir, com obtusa e bovina teimosia: 'Socialismo é liberdade!'. Bem. Se o problema é de palavras, também se poderá dizer que a burguesia é mais, ou seja: 'Liberdade, igualdade e fraternidade'." (Nelson Rodrigues)