A Vida Como Ela É
"Tantos anos depois, ainda vejo o Paul Robeson em todo o esplendor de sua figura e de suas polainas. Vocalmente, tinha a potência de um barítono, ou baixo cantante, desses que exigem a acústica de uma catedral, a cúpula de uma catedral. Enchia a rua, o bairro, com o seu clamor: 'Eu tenho razão! Eu tenho razão!' Lá estavam elas, as polainas. O homem andava de um lado para outro. Bem vi que as polainas o desagradavam da frustração da casaca. Soltava a voz: 'Eu tenho razão! Eu tenho razão!'
Em três ou quatro minutos, vim a conhecer a história toda. Aquilo era um despejo. O crioulão de polainas estava ali como oficial de Justiça. Outros crioulões, e um branco sarará, iam e vinham trazendo os móveis e empilhando tudo na calçada. Quanto à mulher dos gritos (e continuava gritando), era viúva e mãe de cinco ou seis filhos. Há uns três meses o marido morrera tuberculoso e deixara, para a mulher, além das dívidas, a própria doença.
Cabe então a pergunta: e de onde vinha a magnífica, a estupenda, a ululante razão do oficial? Ei-la: a viúva não pagava o aluguel há um ano. E, portanto, ele podia abrir sua razão de par em par, como uma manchete. Outrora, o brasileiro reagia muito contra a violência, mesmo justa, mesmo legal. Sempre um ou outro gritava: 'Não pode, não pode!' Mas ninguém insinuou um vago pio em favor da viúva e dos filhos. De vez em quando vinha a tosse afogar a sua fúria. Ela se torcia e distorcia em náuseas medonhas. Houve um momento em que, depois do acesso, cuspiu na palma da própria mão e espiou o sangue. A vista do vermelho distraiu-a do despejo. Arquejou, sem desespero, apenas informativa: 'o falecido me chama'. Não chorou mais, ou por outra: continuou chorando, mas sem gritar. E as polainas eram mais insolentes do que esporas.
Eis o que eu queria dizer: vem daí, desse pequeno e ilustrativo episódio, o meu horror às pessoas que têm razão e a proclamam com o impudor da manchete. Dirá o leitor que qualquer um pode ter razão. Nem todos, nem todos. Eu diria mesmo que só algumas almas seletíssimas, alguns espíritos de rara delicadeza podem tê-la. Lembro-me de outro episódio também perfeitamente cabível. Foi uma briga de mulheres.Uma senhora insultou outra. Por quê, não me lembro. E o marido da ofendida foi tomar satisfações. A culpada estava esperando criança. Mas o Fulano tinha razão; e porque a tinha derrubou-a a bofetões e mais: pisou-lhe a barriga, chutou-lhe a gravidez. Correto. Tinha razão.
Nas almas menos nobres, a razão pode subir à cabeça em forma de vil embriaguez. E os piores sentimentos, e as crueldades mais secretas e inconfessas, e todos os demônios do orgulho são liberados. Tudo que sei da vida ensina que a razão pode perder a nossa alma e repito: pode destruí-la..."
[trecho de "O Negro Azul", em A Cabra Vadia, de Nelson Rodrigues]
Em três ou quatro minutos, vim a conhecer a história toda. Aquilo era um despejo. O crioulão de polainas estava ali como oficial de Justiça. Outros crioulões, e um branco sarará, iam e vinham trazendo os móveis e empilhando tudo na calçada. Quanto à mulher dos gritos (e continuava gritando), era viúva e mãe de cinco ou seis filhos. Há uns três meses o marido morrera tuberculoso e deixara, para a mulher, além das dívidas, a própria doença.
Cabe então a pergunta: e de onde vinha a magnífica, a estupenda, a ululante razão do oficial? Ei-la: a viúva não pagava o aluguel há um ano. E, portanto, ele podia abrir sua razão de par em par, como uma manchete. Outrora, o brasileiro reagia muito contra a violência, mesmo justa, mesmo legal. Sempre um ou outro gritava: 'Não pode, não pode!' Mas ninguém insinuou um vago pio em favor da viúva e dos filhos. De vez em quando vinha a tosse afogar a sua fúria. Ela se torcia e distorcia em náuseas medonhas. Houve um momento em que, depois do acesso, cuspiu na palma da própria mão e espiou o sangue. A vista do vermelho distraiu-a do despejo. Arquejou, sem desespero, apenas informativa: 'o falecido me chama'. Não chorou mais, ou por outra: continuou chorando, mas sem gritar. E as polainas eram mais insolentes do que esporas.
Eis o que eu queria dizer: vem daí, desse pequeno e ilustrativo episódio, o meu horror às pessoas que têm razão e a proclamam com o impudor da manchete. Dirá o leitor que qualquer um pode ter razão. Nem todos, nem todos. Eu diria mesmo que só algumas almas seletíssimas, alguns espíritos de rara delicadeza podem tê-la. Lembro-me de outro episódio também perfeitamente cabível. Foi uma briga de mulheres.Uma senhora insultou outra. Por quê, não me lembro. E o marido da ofendida foi tomar satisfações. A culpada estava esperando criança. Mas o Fulano tinha razão; e porque a tinha derrubou-a a bofetões e mais: pisou-lhe a barriga, chutou-lhe a gravidez. Correto. Tinha razão.
Nas almas menos nobres, a razão pode subir à cabeça em forma de vil embriaguez. E os piores sentimentos, e as crueldades mais secretas e inconfessas, e todos os demônios do orgulho são liberados. Tudo que sei da vida ensina que a razão pode perder a nossa alma e repito: pode destruí-la..."
[trecho de "O Negro Azul", em A Cabra Vadia, de Nelson Rodrigues]

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